07 de Outubro de 2005 – 18:30
Sentados lado a lado no corredor da São Judas eu e a Priscilla (ainda não tinha tanta intimidade para chamá-la de Pri) esperávamos que o cretino do professor das aulas de quinta a noite chegasse para abrir a sala.
Abraçados com o acaso, conversávamos sobre de tudo um pouco. Ela conseguiu naquele dia realmente sair às 6 horas e eu, por um milagre do trânsito, também cheguei mais cedo na faculdade naquele dia.
Era véspera do seu 23º aniversário e lhe dei meus parabéns adiantado, sem nem ao menos saber que estaria com ela nos primeiros minutos do dia seguinte. Para falar a verdade, pouco nos falávamos, eram nada mais do que simples “oi tudo bem”, mas naquele dia o traçado de nossos destinos convergiu para o mesmo ponto.
Embalado pela conversa, o brilho esverdeado que emanava de seus olhos pela primeira vez prendeu minha atenção, numa espécie de rede invisível de sutilezas. Estudávamos na mesma sala praticamente por quatro anos e só agora essa maneira de olhar me atingia de frente.
Mesmo prestando atenção na conversa, meus olhos vagueavam pelo seu rosto e minha mente registrava todo o encanto de uma mulher que acabava de surgir na minha frente. Era incrível como eu não havia prestado a devia atenção a ela antes.
07 de Outubro de 2007 – 18:30
A mistura de música de má qualidade no último volume, gente esquisita decorando o ambiente e um barzinho pequeno e abafado na região do Ibirapuera, era com certeza uma combinação de embrulhar o estomago.
Some-se a isso, o fato de que eu e a Pri estávamos lá não por vontade própria, mas sim, por causa de uma bendita matéria que ela tinha de fazer. Ninguém merece trabalhar em pleno domingo, mas fazer o que, são coisas da vida.
Enquanto eu tomava uma breja e ela bebericava o seu licorzinho de chocolate, um camarada nos caricaturava toscamente numa folha de papel.
— Pri, vou guardar a caricatura lá no carro e já venho.
Volto de cabeça quente por causa da notícia que acabo de ouvir no rádio. Perdemos para o CÚrintia. Saco, já estava me acostumando a não perder. Dou a notícia e ela me olha com aquela cara de “não dá para ganhar sempre, né” típica de quem não está nem aí para futebol.
Continuamos a assistir o show e percebo que de verdade não estou muito irritado por causa do jogo, isso porque, enquanto mordisco a orelha e a nuca da Pri, entendo que o que realmente me importa nessa vida está entre meus braços.
07 de Outubro de 2005 – 20:30
Não acredito no que acabo de fazer. Esse era o meu pensamento enquanto entrava na aula e experimentava o delicioso friozinho na barriga do primeiro encontro.
Antes, porém, depois de algum tempo de uma conversa extremamente agradável, minha vontade se antecipou à razão, e quando me dei conta, minha boca já havia pronunciado as palavras que minha cautela clamava para que não fossem ditas.
— Quer ir ao cinema comigo?
Idiota, minha razão me auto-declarou, enquanto minha mente trabalhava a mil numa crescente de adrenalina por causa da expectativa da resposta.
— Quero. Respondeu ela para o meu conforto.
A confirmação me fez mergulhar num mar de alívio e rapidamente subir numa explosão interna de uma nova expectativa. Trocamos telefones e marcamos o horário combinado, antes de encarar agora, a não tão maçante aula de assessoria de imprensa.
Caminhei até o fundo da sala onde estavam o Renan e o Vitão, mas não sem antes ouvir os cochichos frenéticos da Paula ao receber a notícia do encontro. Ela estava mesmo querendo dar uma de cupido nos últimos tempos.
07 de Outubro de 2007 – 20:30
A fome era enorme, mas a grana era muito curta. Por isso resolvemos parar no Black Dog ao lado da São Judas, no caminho de volta pra casa. Era bizarro voltar para tão perto do lugar onde tudo começou exatamente dois anos antes.
— Lembra daquele dia aqui na facu? Perguntei.
— Claro que lembro, nem parece que já faz dois anos.
— Pois é, o tempo passa rapidão mesmo. Parece que foi ontem que você não parava de me dar bola. Respondi já esperando a trovoada.
O olhar de indignação se seguiu de uma enxurrada enorme de frases que, verdadeiramente me desmentiam. Ela sempre fica nervosa quando brinco com essas coisas, mas mesmo assim adoro ver essa cara de brava.
— Pedido número sete. Gritou a garçonete lá do balcão.
UFA! Salvo pelo gongo.
08 de Outubro de 2005 – 00:30
O apagar das luzes da sala de cinema criou a atmosfera perfeita para nosso primeiro beijo, os trailers já haviam começado, mas quem disse que eu estava tão calmo assim.
Certa vez ouvi num filme que beijar alguém pela primeira vez era como entrar para pular corda. Você fica sem saber o que fazer, naquele vai num vai, e quando finalmente consegue, vem àquela sensação boa de “consegui, consegui, consegui”. Contudo, o filme já havia caminhado por extensos cinco minutos e eu continuava naquele pula ou não pula.
Já nem prestava mais atenção no “O coronel e o Lobisomem” que passava na telona, enquanto isso, meu cérebro buscava alguma coisa inteligente para dizer naquele momento.
Mas foi aí, sem saber ao certo o porquê, que novamente a emoção falou mais alto que a razão. Num movimento quase como se independesse da minha vontade, coloquei minha mão sobre a dela, e uma parede de gelo se desfez.
Daquele instante em diante nossos caminhos se entrelaçariam cada vez mais, mas eu de olhos fechados não pensava em mais nada.
08 de Outubro de 2007 – 00:30
Depois de um final de semana exaustivo e extremamente produtivo, tanto eu como a Pri adormecemos profundamente no sofá. Tem que ter muito pique para em apenas dois dias ir atrás de cozinha, comprar brinquedo do dia das crianças e de aniversário para o sogro, além de passear na chácara e brincar com a Sarah na piscina.
Depois de umas três horas acordei de supetão com o barulho da TV e chamei a Pri para deitarmos na cama. Ainda estávamos na primeira meia hora do dia oito, fazíamos dois anos de namoro e ela 25 primaveras. Contudo, cambaleando pela casa, saímos de um lugar e capotamos no outro.
Nem ao menos tive forças para arrancar dela aquele beijão de aniversário, muito menos brincar que ela me ganhou de presente de aniversário dois anos atrás e depois dizer que a amo muito, só para ver aquela carinha de brava se derreter.
















Fiquei emocionada só de ler o post. Lindo, lindo, lindo!
Pô, que blog lindo. Vi o link agora e fico muito feliz pelo momento bacana que estão vivendo.
E pela delicadeza de exergar a felicidade nas sutilezas da convivência. Ler os textos cria bons sentimentos. Felicidade pelos dois.
Beijos